Sementes limpas, frutos saudáveis

uvas

Há 20 anos, agricultores agroecologistas do município de Antônio Prado, localizado na encosta do nordeste gaúcho, organizaram uma associação para cultivar somente orgânicos. Com o apoio da Pastoral da Juventude Rural e do Centro de Agricultura Ecológica de Ipê, as famílias da região receberam orientação e treinamento para a limpeza do solo. “Nessa época existiam muitos alimentos com agrotóxicos e já estavam causando problemas de saúde em nossas famílias”, conta o agricultor Nelson Camati, associado desde 1992.

Um dos incentivadores desse projeto bem-sucedido, que se transformou na Cooperativa Aécia, foi o padre João Bosco Schio. Ele ministrava palestras aos mais jovens, ensinando sobre a produção de alimentos orgânicos, os males da poluição ambiental, o empobrecimento dos agricultores e o êxodo rural. As sementes limpas frutificaram e, hoje, reúne 21 famílias dos municípios de Antônio Prado e Ipê. “Depois da Aécia, surgiram mais cinco associações na região”, diz Camati, que acompanhou o crescimento do trabalho e já presidiu a cooperativa.

A primeira estratégia para compartilhar e divulgar a produção de orgânicos foi organizar uma feira de agroecologia, em Porto Alegre. Atualmente, o sul do país abriga cerca de 150 feiras como esta, que acontecem semanalmente nos centros urbanos e em pequenas comunidades rurais. A uva e o tomate são os principais cultivos da região. Os sucos concentrados, por exemplo, são produzidos de acordo com o tipo de uva. A cooperativa comercializa as variedades Isabel,BourdouxNiágara BrancaNiágara Rosada.

Com os tomates são produzidos extratos e molhos. O tipo arrendondado, conhecido como antigo Paulista, produz uma massa mais concentrada, segundo Camati. A semente do fruto já foi domesticada há dez anos e está adaptada ao solo, clima e região.  A cooperativa faz a produção primária, o processamento e a industrialização dos cerca de 24 produtos, que inclui doces, geléias e compotas. O período de safra dos dois cultivos principais é entre janeiro e março. O volume chega a 150 mil quilos de uva e 100 toneladas de tomates por ano. A cooperativa conta com quatro agroindústrias para transformar a colheita em produtos diversificados. Os sucos e molhos da Aécia também são despachados para São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. “Temos bastante procura. A demanda está crescendo, inclusive, das grandes redes de supermercado”, comenta Camati, citando que o Pão de Açúcar já é cliente da cooperativa.

A comercialização na feira é feita por meio de núcleos de agricultores. A Aécia tem quatro bancas na feira de Porto Alegre e duas em Caxias do Sul. Cada grupo de agricultor é responsável pelas barracas. O cultivo de alimentos orgânicos também garantiu saúde aos trabalhadores rurais. Camati diz que há mais de 20 anos ele e sua mãe adoeceram porque utilizava veneno em sua produção familiar. “Demorei alguns anos para me curar e retirar os metais pesados do organismo”. Sua filha de 9 anos teve diagnóstico de DDT no organismo. Desde maio, o governo brasileiro proibiu a importação, armazenamento e uso desse pesticida.

O agricultor destaca que a questão de saúde é fundamental para o sucesso desse trabalho desenvolvido pela cooperativa. O grupo percebeu que trabalhar com produtos ecológicos garante boa saúde. Nas conversas com os consumidores, eles também observam a alegria do público em adquirir esse tipo de produto. E, ainda, a relação de cumplicidade entre produtor e consumidor. Essa consciência de quem compra, Camati atribui aos efeitos devastadores das mudanças climáticas e alterações provacadas no dia a dia do campo e da cidade. Os produtos da Aécia são certificados pela Ecocert e Ecovida. “Isso que nos dá estimulo. Nos sentimos valorizados”, finaliza.

Fonte: Malaqueta
Texto: Juliana Dias
Edição de imagens: Carolina Amorim (Foto de Amanda Vivan)
Revisão: Juliana Esteves